
Depois de uma semana sem novidades quentes no noticiário, abdiquei do óbvio e não irei falar da guerra no oriente médio, chega de conflito, guerra, maldade, tiros, mísseis e foguetes, vou falar sobre algo que tem matado bem mais do que qualquer guerra. Os motoristas brasileiros, usuários dos matadouros de asfalto ralo talvez não saibam, mas no trânsito, em oito anos, foram registrados mais de 2,5 milhões de acidentes no Brasil, com 254 mil mortes, segundo a Associação Brasileira de Medicina do Tráfego. E dentre os fatores podemos começar a enumerar com a histórica falta de observação e o descaso com que o Estado como um todo trata a infraestrutura rodoviária. Somando isso à idade sexagenária da frota automobilística que trafega por estradas de barro esburacadas, adicionado ao despreparo na formação dos pilotos-motoristas, consumidores que compram os testes de habilitação entrando nas vias e autoestradas pelas portas da clandestinidade, sendo um risco em potencial para os pedestres e a outros clandestinos, por não conseguir tirar a carteira “na raça” como se diz na gíria popular, os novos motoristas procuram a alternativa mais acessível nos DETRANS da vida. Mas essa lacuna existente no condicionamento intelectual e psicológico que os motoristas estão submetidos em sua pseudoformação, poderá ser preenchida com o aperfeiçoamento da legislação do código de transito, que a partir desse ano irá requerer o dobro no número de horas-aula, tanto teórica quanto na prática da pilotagem em vias públicas. E a demonstração mais evidente da ausência estatal no âmbito da composição infraestrutural de trafegabilidade no Brasil, vê-se privatização das principais vias e corredores, entregando ao pedágio a sua falta de intervenção e atuação política. O máximo esforço empregado pelos governos, tanto federal quanto estadual, são as dispendiosas operações tapa-buracos, que se limitam a roçar a vegetação das margens das pistas, colocarem placas de sinalização, que logo serão recobertas por uma crescente camada de “mato”, gasto de milhões em um recapeamento, se é que podemos chamar disso, que vai com a correnteza logo na primeira ou segunda chuva que vier.

As leis também não têm muita serventia na prevenção dos acidentes, a própria lei seca, que no seu até então, período de vigência, só se viu aumentar a quantidade de tragédias relacionadas à dupla: direção mais bebida. Foram concedidos à iniciativa privada, por 25 anos, todos os problemas de manutenção das estradas que as quais fluem os produtos de exportação, os leilões da ANTT, deixaram nas mãos de empresas privadas quinhentos anos de irresponsabilidade e descaso; em troca das boas condições de tráfego os usuários dessas vias são penalizados através do pedágio, este, que não é descontado nos impostos dos automóveis. E mais, em 2006, o IPEA demonstrou que os impactos sociais e econômicos dos acidentes de trânsito nas rodovias brasileiras são bastante significativos, estimados em R$ 24,6 bilhões, principalmente relacionados à perda de produção relacionada às mortes das pessoas ou à interrupção das atividades das vítimas. Além dos custos diretos, há vários outros, como a desestruturação familiar e pessoal. Os acidentes de trânsito matam hoje mais de um milhão de pessoas por ano em todo o mundo, os países perdem de 1% a 2% do PIB com gastos relacionados aos acidentes automobilísticos. O SUS informa que em 2006 foram 123.061 internações, divididas entre atropelamentos e acidentes de motos. As estatísticas relacionam ao consumo excessivo de bebidas alcoolicas, alta velocidade, não uso de capacetes ou cinto de segurança, e problemas de infraestrutura em vias e rodovias públicas. O número de adolescentes que morrem na faixa de Gaza também não se compara com a quantidade que sucumbem nas nossas corruptelas. Só para encerrar; uma ironia se instala em terras alemãs, onde as auto-bahns, superestradas que não têm limite de velocidade, em que os carros “voam” com extrema segurança, num tapete de asfalto, quis o destino fossem projetadas por um engenheiro brasileiro, pernambucano, Antônio Bulhões. Essas suprestradas são custam menos que os nossos matadouros de piche e barro.